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Romário (de Plácido) por ele mesmo

Profissão: Professor

15/04/2023 às 21h22 Atualizada em 16/04/2023 às 08h14
Por: Paulo Roberto
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Formatura - Educação Física e Nutrição
Formatura - Educação Física e Nutrição

Narrativa autoral de Romário da Silva Lima

Dedicatória à família e a todos que se identificam com a sua bela e edificante história 

Sou Romário da Silva Lima, natural de Rio Branco – Acre. Tenho 29 anos, e quero relatar e compartilhar com vocês, através desta página, um pouco da minha trajetória de vida.

Pretendo, também, discorrer sobre a minha formação acadêmica, as superações e incentivos postos ao redor para então recorrer, pois me proporcionaram forças a romper muitas barreiras que encontrei pelo caminho deste sonho que ainda trilha comigo e me dá fôlego para seguir adiante.

Sei que a jornada não cessa ou se encerra aqui, mas eu creio que daquele deserto muito superei, e por isso estou mais próximo do que antes.

Sou professor, mas será que era isso que eu queria ser? Era um dos meus sonhos, mas eu tinha outro, principal, o de ser jogador de futebol. Quem nunca sonhou, né? Na verdade, eu tinha tempo de treinar profissionalmente e estudar, e ali eu reunia esses dois planos: A e B. Eis que se apresenta o plano C, do meu provedor, meu pai, de me ver formado em Engenharia Civil para ajudar na sua empresa, mas confesso que o exercício desse nobre cargo não comungava da minha vocação.

 A obediência e a obrigação conduziam-me com ele ao serviço, não havendo espontaneidade, esse amar natural característico de todo exímio trabalhador. Em meio à imposição do plano C, entra em cena o fator principal desta história, minha mãe. Ah! Que mulher guerreira, hein! Falar dela é um relato de emoção.

Ela se aproximou de mim e falou: - Filho, antes de Deus me levar, quero te ver formado e bem-sucedido, e para que isso aconteça ou contribua, trabalharei dia e noite, dando-te o essencial para que conquistes seus objetivos; só não desista, tá?

Lembro-me até hoje da pureza e sinceridade de minha mãe falando e chorando. Não foi fácil escutar aquilo dela, mas apesar de ficar imobilizado com o coração apertado, arrisquei palavras naquele momento, e falei para ela que eu iria tentar cursar uma faculdade. Foi então que em 2013 comecei a cursar o tão sonhado ensino superior, cuja faculdade é localizada em Rio Branco, capital do Estado do Acre.

Acontece que, como tantos outros alunos do nosso município, tínhamos de nos deslocar de Plácido de Castro a Rio Branco todos os dias, sob chuva ou sol, às 15h, horário que o ônibus saía da nossa localidade e chegava ao destino por volta das 17h ou até 18h, isso quando não quebrava no meio da viagem.

Quando quebrava, nós chegávamos à faculdade às vezes 19h, noutras 20h, e em outros momentos sequer chegávamos a concluir o trajeto, e diante da demora, quase do meio da viagem, voltávamos para nossas casas, pois não conseguíamos ir por conta do ônibus quebrado, e quando o coletivo dos acadêmicos não quebrava, quando chegávamos à faculdade, assistíamos à aula e retornávamos para nossas casas.

Fiz esse trajeto durante 4 anos, digo e repito que não foi fácil, nunca será fácil, mas pensar em desistir não vai adiantar, e sei que muitas vezes essa ideia me martelou o juízo. Até tranquei o curso por meio período, mas minha mãe não saía do meu pé, e falava: - Você lembra, filho, que iria tentar agregar ao seu objetivo? Agora se não for por você, faça isso por mim. Era cansativa a nossa rotina.

Porém, em meio a tantos planos, ver o sonho de uma pessoa que jamais desiste de você, não tem preço. Minha mãe muitas das vezes humilhada nas casas dos seus patrões. Teve um patrão que até hoje eu lembro muito bem dele, que foi o meu padrinho Cesar Lazzare, ex-empresário e vereador da nossa cidade. Ele tratava nossa família como sua, e por conta do seu falecimento a família dele se mudou de Plácido de Castro. Foi aí que minha mãe teve que arrumar outro emprego, porque ela sempre falava que precisava trabalhar para me ajudar, e falar um dia para as pessoas que conseguiu formar um filho.

Foi daí que ela arrumou outro emprego. Vi no semblante dessa mulher que não estava tudo bem, quando se diz que as atividades de diarista, na casa dos outros, é muitas vezes um misto de dor e humilhação. Deve existir uma boa relação, mas o serviço pesado, a dor na coluna e na cabeça de tanto pensar, não passa como água de rodo e sabão.

Eu sei que não suporto um tantinho do que ela enfrentou, mas deixar de lado o sonho de meu pai e me apoiar no dela e meu, como suporte, depois de tanta luta, choros e renúncias, conseguimos.

Tem uma cena que até hoje não sai da minha memória. No ano de 2014, no decorrer do nosso trajeto a uns 15 ou 20 km da nossa cidade, o ônibus se colidiu a um boi, animal esse que de uma vez entrou na pista, mas graças à mão poderosa de Deus e à habilidade do motorista, não houve impacto direto, mas de raspão, de modo que ziguezagueando o ônibus ficou até firmar-se na estrada e seguirmos em frente.

Nesse dia não foi fácil. Lembro-me de ter agradecido tanto a Deus, pois se não fosse suas mãos poderosas, nenhum de nós teria oportunidade de tecer esta narrativa de pânico, temor e fé daquele momento, pois eu creio que uns 35 alunos estavam naquele ônibus da nossa associação.   

Futebol 

Minha trajetória no futebol acreano começou quando nas aulas de Educação Física, ainda na escola, começava a ter aquele amor pelo esporte, seja ele qual fosse, mas o futsal sempre falava mais alto dento de mim. E naquela época para eu praticar o esporte não era fácil por ser gordinho. Coloquei na minha cabeça que eu poderia emagrecer, foi então que eu comecei a treinar pesado na escolinha do Bia e do Lima, e consegui ficar no peso ideal.

Veio o destaque. Comecei a jogar nas categorias de base da nossa cidade, sub 13, depois sub 15, sub 18, e quando chegou no sub 18 já comecei a me destacar e compor o time profissional da nossa cidade Tigre do Abunã "Plácido de Castro". Digo e repito não era fácil jogar futebol no meio adulto, pois ali eu fui vendo que há muita sabotagem, ciúmes bobos e até destruição, e para a pessoa se dar bem, querem te derrubar, como muitos jovens na época não se deram bem no futebol porque o egoísmo falou mais alto.

Eu na época era para ter me dado bem como meu amigo e irmão Neto, pessoa que hoje está ganhando o mundo no futebol. Ele sabia escutar, não era como eu, que não sabia. Se as pessoas viessem me humilhar ou querer falar grosso comigo, eu não aceitava e já estava formando discussão.

Muitas vezes o Neto me acalmava, conversávamos bastante a respeito desse sonho de ser jogador, eu e aquele jovem com cabeça de adulto. Hoje me sinto orgulhoso do que eu já joguei ou tentei jogar, e sinto mais orgulhoso ainda pela trajetória de vida do Neto, pessoa que serve de exemplo para muita garotada da nossa cidade.

Após a formatura

No ano de 2013, nos tornamos campeões do Campeonato Acreano. Minha trajetória pós-faculdade concluída foi em 2017 onde o nosso prefeito eterno Gedeon me deu uma oportunidade para trabalhar em Vila Campinas na escola João Batista Lopes de Lima, escola essa que eu trabalhei entre 2017 e 2020. E, olhem, que boa experiência é ser professor recém-formado, mesmo lecionando em 4 salas, pois na época eu ministrava aulas de História, Religião e Educação Física, disciplina esta que eu tirava de letra, pois era a área do meu curso superior, mas História e Religião eu tinha que chegar em casa e estudar, para quando chegasse em sala de aula não ficar voado.

Já no ano de 2018 eu juntamente com a equipe gestora trabalhamos incansavelmente para treinar os dois times da escola sub 14 masculino e o sub 14 feminino. Eu como professor treinei, e a equipe gestora deu o suporte necessário. Não deu outra: Escrevi meu nome no mural da escola como o primeiro professor a trazer um título, pois para eles foi um título o segundo lugar dos jogos escolares da fase municipal. Foi uma alegria total.

Fomos bem recepcionados na nossa escola quando chegamos com o título. Lembro-me que no dia nem teve aula, então são esses feitos que me dão motivação a prosseguir esta caminhada como profissional da minha área, Educação Física. Sei também que esses anos todos serviram muito de experiência para minha carreira profissional, e quando surgiu o seletivo do estado, passei para lecionar em Vila Campinas, mas agora numa escola estadual, São Luiz Gonzaga. Trabalhei entre 2018 e 2020, e dava de conciliar as atividades em ambas as escolas.

Até hoje sinto saudade dessa escola, do trabalho desenvolvido à frente dos jogos escolares do ano de 2019. Meu nome vai estar lá na memória da escola como campeão da fase municipal, regional e quase ganhamos a fase estadual, ficamos no quase para viajar para fase nacional fora do estado, feito esse que foi com a categoria Sub 14 masculino.

Já no ano de 2021 teve outro seletivo do estado para professor de todas as áreas; fiz e passei, me escrevi para a minha cidade Plácido de Castro e para Santa Rosa, mas Santa Rosa? Sim. Quando saiu o resultado eu fiquei em segundo lugar para Plácido e em primeiro lugar para Santa Rosa. Foi então que fui me planejando, conversando com minha família e explicando que eu sempre gostei de desafios, queria e estava pronto para encarar mais um, de novas pessoas, nova cultura, mas isso para minha mãe não foi imediatamente aceito e conquistado, pois ela queria que eu ficasse em família. Por meu pai, tudo bem, pois era por uma boa causa, trabalhar para realizar os meus sonhos e ideais, não deixando de ser uma conquista para todos eles.

Foi quando nos reunimos, eu e meus pais. E como a família é a base de tudo, nunca gostei de tomar decisões sozinho, sempre tive o auxílio da minha família. Então entramos num consenso e hoje estou em Santa Rosa desde o ano 2021, e não pretendo no momento voltar para a minha cidade. Santa Rosa é um lugar bom de se viver e morar. Tem pessoas acolhedores, e más como em qualquer lugar, mas graças ao nosso bom Deus estou realizando o meu sonho e pretendo dar um futuro melhor para a minha mãe, pois se hoje eu estou realizando, 100% são graças a ela, e sem ela não haveria sequer um começo.

Bem, sou formado em Licenciatura e Bacharelado em Educação Física e pós-graduado em Educação Física e Nutrição, uma conquista que trilhou esse caminho e vem driblando as dificuldades da vida. Estou tomando um refresco nesta estada, pois como eu disse, pretendo seguir em frente, sempre colocando meus pais em pauta, pois sem a minha mãe eu nada conseguiria.

Seguindo de barco nas aventuras da vida

JOGOS ESCOLARES ANO 2022

Acrescento com honra e alegria esse feito marcante aqui no município de Santa Rosa do Purus, que no ano 2022 eu e meus alunos atletas do time Sub 17 fomos representar nosso município e escola Padre Paolino Maria Baldassari, nos jogos escolares fase Estadual no município de Epitaciolândia-AC. Foi uma viagem longa de batelão, com mais ou menos 2 dias para chegar em Manoel Urbano, isso porque o rio estava cheio, pois se tivesse seco gastaríamos muito mais.

De Manoel Urbano para lá passamos mais três dias para chegar no nosso destino e jogar.

O que eu levei de aprendizado foi que saí de Plácido de Castro para dar o meu melhor, e sempre fui movido por desafios por não gostar de nada fácil. Acontece que nem tudo são flores e em muitas vezes até pensei em desistir, porque nos paira um desânimo, mas graças a Deus eu me apego na fé e na persistência, e em algumas pessoas deste município.

Poucas pessoas são capazes de reconhecer o sacrifício. E se muitas querem ver o teu bem, outras, em grande maioria, não gostam de do seu progresso. Deus sempre sabe o que faz e hoje me sinto honrado em ter conhecido pessoas que me tratam como um integrante de sua família, e mesmo distante de casa e dos familiares, ainda existem seres humanos de bom coração dispostos a nos ajudar.

Espero que esse relato da minha vida sirva de exemplo para muitas pessoas, pois na vida para você conquistar seus objetivos tem que sair da zona de conforto, renunciar muitas coisas e sair das asas dos pais.

Esse voo da vida é o pior, como as águias que avistam os céus e montanhas, e em meio à tempestade encontram nas asas a força maior. Não devemos continuar fazendo as vezes de pessoas submissas; voar é uma liberdade que custa caro, mas é gratificante a conquista.

E nossos pais já fizeram o possível para nos servir e cuidar, e agora é a nossa hora de retribuir e de cuidar sobre tudo o que fizeram por cada um de nós. E nunca se esqueçam que com humildade e persistência podemos ir além dos nossos sonhos, bastando força de vontade e fé em Deus.

Romário é professor de Educação Física da rede estadual

de Santa Rosa do Purus-AC

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