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O nascimento do rock verdadeiramente brasileiro em “Os Mutantes”

Um trio de ameaças à ordem pública vindos de São Paulo revolucionou a música na base de psicodelia e zoação

01/06/2023 às 05h43
Por: Informativo Plácido Fonte: Igor Miranda
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Foto: Reprodução | Igor Miranda
Foto: Reprodução | Igor Miranda

O rock sempre foi uma proposta mais conceitual do que prática no Brasil. Enquanto o gênero ascendia no resto do mundo, aqui no país reinava o samba, a bossa nova e os cantores românticos.

A primeira empreitada de capitalizar em cima do rock, a Jovem Guarda, era em grande parte uma cópia carbono do que Elvis e outros artistas haviam feito dez anos antes. O Brasil precisava de alguém capaz de mostrar ao grande público uma versão contendo a alma nacional dessa música.

Calhou que dois irmãos e uma garota ruiva de São Paulo estavam prontos para atender esse chamado.

Ronnie Von

Tudo começou com Arnaldo Baptista e seu irmão, o brilhante Cláudio César Dias Baptista. Os dois formaram em 1964, junto com Raphael Vilardi e Roberto Loyola, um grupo de rock chamado The Wooden Faces (“os caras de pau”, traduzindo) que se apresentava por festas colegiais em São Paulo.

Nesses eventos, eles acabaram conhecendo outro grupo de vocalistas femininas chamado Teenage Singers, que contava com a jovem Rita Lee. Elas foram convidadas a se juntar ao grupo, junto com o irmão caçula de Arnaldo e Cláudio César, Sérgio Dias. A banda passou a se chamar Six Sided Rockers.

Em 1966, após o primeiro compacto do grupo vender menos de 200 cópias, Loyola e Cláudio César deixaram o grupo junto com o resto do Teenage Singers. Restaram apenas Arnaldo, Sérgio e Rita. 

Os três decidiram continuar e, inspirados pelo livro “O Império dos Mutantes”, de Stefan Wul, se rebatizaram Os Mutantes. Abraçaram, assim, uma imagem mais brincalhona, alternando ficção científica, Beatles e ovarem pessoas esperando ônibus na rua.

O trio teve a oportunidade em outubro de 1966 de se apresentar no programa “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, apresentado pelo cantor que representava uma espécie de lado B da Jovem Guarda. 

A banda impressionou tanto a ponto de serem convidados a se tornarem parte do elenco fixo e participarem das gravações do terceiro disco de Ronnie, já puxando influências psicodélicas para seu som.

Os Mutantes deixaram de participar do programa de Ronnie Von no início de 1967, com mudanças na direção artística do programa que o grupo não concordava. A esse ponto, haviam outras ofertas de emissoras; com isso, exploraram suas opções.

Causa tropicalista

Nesse período de expansão além do programa de Ronnie Von, eles conheceram uma das figuras mais importantes para sua trajetória: o maestro Rogério Duprat. Ele havia sido aluno de Karlheinz Stockhausen, pioneiro da música eletrônica, e buscava dissolver a barreira entre a música clássica e o pop. A partir de sua apadrinhagem, Os Mutantes passaram a participar dos grandes festivais de MPB.

A primeira performance da banda que chamou a atenção do público brasileiro foi quando acompanharam Gilberto Gil no III Festival da Música Popular Brasileira. Tocaram um arranjo de “Domingo no Parque” que combinava MPB com rock e psicodelia.

Em seu livro “Rita Lee: uma autobiografia”, Rita Lee contou sobre a preparação intensa da banda, que não sabia ler partituras e não estava acostumada com os arranjos complexos de Duprat:

“A nova empreitada exigiu esforço extra, um dia inteiro passando harmonia e melodia, outro decorando a letra, mais um para montar vocais e tantos outros para eventuais detalhes. Foi só no ensaio geral, já no teatro da Record, que finalmente aconteceu a fusão voz/violão de Gil + vocais e eletronicidades dos Mutantes + um baterista profissa chamado Dirceu + o arranjo de orquestra do maestro Rogério Duprat”.

A reação do público brasileiro ao novo som foi de aprovação: a música conquistou o segundo lugar no festival. A partir daí, eles se juntaram com Caetano Veloso e Gilberto Gil na causa tropicalista e protagonizaram momentos memoráveis da música brasileira, como a apresentação sob vaias de “É Proibido Proibir” no III Festival Internacional da Canção em setembro de 1968 e também do programa “Divino, Maravilhoso”, última grande manifestação tropicalista.

Parecidos demais com os Beatles

Em 1968, Os Mutantes assinaram um contrato com a Polydor para gravarem seu primeiro disco, a ser arranjado por Rogério Duprat. Entretanto, o maestro achava que a banda ainda soava um pouco demais como os Beatles. Nesse período, havia uma reação por parte dos nomes mais tradicionais da MPB contra a guitarra elétrica, seja por a considerarem vulgar ou influência imperialista.

O maestro sabia que, para materializar seu plano e extrair o máximo da banda, precisaria ir além. O jeito foi entrar de sola na zoeira. Sérgio, Arnaldo e Rita sempre foram uma entidade caótica – e foram incentivados a transparecer isso nas canções.

Arnaldo Baptista contou ao Jornal do Brasil em 2018 sobre a influência do maestro ao instigar a criatividade da banda:

“O Duprat, além de estimular o meu lado clássico, me incentivou muito a estudar piano. Os takes de trompas e outros instrumentos de orquestra presentes nos Mutantes foram concepções dele.”

O resultado foi uma junção de Beatles, psicodelia, música concreta, pop art, ritmos africanos e MPB. Caetano e Gil contribuíram ao disco com as canções “Panis et Circenses” – cuja letra foi escrita pelos dois em 15 minutos especialmente para Os Mutantes – e “Bat Macumba”, com seu ritmo percussivo influenciado por candomblé. Veloso ainda teve uma contribuição solo em “Baby” e co-autoria em “Trem Fantasma”.

A partir desse material de qualidade, Os Mutantes se propuseram a desconstruir tudo. Inseriram guitarras distorcidas, ruídos, sonoplastia, mudanças bruscas de ritmo, instrumentação nada ortodoxa e até o uso de objetos domésticos para simular instrumentos – no caso, uma lata de inseticida em “Le Premier Bonheur du Jour”.

Entretanto, o disco ainda precisava de uma canção, e Rita Lee foi até a casa de Jorge Ben sem avisar, como ela contou em “Rita Lee: uma autobiografia”:

“Quem abriu a porta toda descabelada foi uma cantora não muito conhecida na época. Ops, já ia me desculpando pela inconveniência quando o deus do suingue escancara a porta e simpaticamente me convida a entrar. Por cinco segundos pensei que ia rolar um ménage, mas nos segundos seguintes mr. Ben já estava no violão tocando o esboço de ‘A Minha Menina’ com olhares de torpedo para a moça. Tempos depois, quando a cruzava nos bastidores da vida, então já muito famosa, trocávamos olhares e um sorrisinho cúmplice.”​

Nasce o rock brasileiro

O álbum “Os Mutantes” foi lançado em junho de 1968 e vendeu menos de 10 mil cópias. Com o tempo e os efeitos duradouros da Tropicália na música brasileira, recebeu seu lugar de direito como um dos principais trabalhos da história da música brasileira.

Como Arnaldo Baptista resumiu ao Jornal do Brasil em 2018:

“Trouxemos para a música um lado psicodélico, cheio de efeitos especiais de guitarras, enfim, acho que inventamos o rock brasileiro, sim.”

Os Mutantes – “Os Mutantes”

  • Lançado em junho de 1968 pela Polydor
  • Produzido por Manoel Barenbein

Faixas:

  • Panis et Circenses
  • A Minha Menina
  • O Relógio
  • Maria Fulô
  • Baby
  • Senhor F
  • Bat Macumba
  • Le Premier Bonheur du Jour
  • Trem Fantasma
  • Tempo no Tempo
  • Ave Gengis Khan

Músicos:

  • Arnaldo Baptista (baixo, teclados, voz)
  • Rita Lee (voz, flauta doce, percussão)
  • Sérgio Dias (guitarras, voz)

Músicos adicionais:

  • Dr. César Baptista (voz na faixa 11)
  • Dirceu de Medeiros (bateria)
  • Jorge Ben (voz e violão na faixa 2)
  • Rogério Duprat (arranjos)

 

 

 

 

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