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Ali na casinha ao lado do parque ecológico

Existe mais uma vida que sofre

12/04/2022 às 15h37 Atualizada em 12/04/2022 às 16h15
Por: Paulo Roberto
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Ali na casinha ao lado do parque ecológico

Hoje a dignidade me bateu à porta. É de plena sabença e berço que, vez por outra, o sangue nos atrai, as causas que não podemos nos valer ainda ecoam dentro do peito. É quase impossível viver sozinho ou fazer-se à conta que Deus fez apenas um indivíduo no mundo para não procriar e não dividir sentimentos.  

É certo como dois e dois são quatro que existe amor e compaixão por toda nossa Plácido de Castro, que existe pessoas boas, assim como exatamente em algum lugar do país.

Mas não basta tão-só a pobreza como receita de um bolo de trigo e açúcar mascavo, que de tão murcho mal alimenta, porque muitas pessoas adoçam suas vidas com o que têm. Eu não gosto, mas alguém já provou e prova do gosto amargo da incerteza quase todos os dias. E, portanto, a saúde, esta sim, é uma dádiva e presente de Deus.

Após a curva da rua do parque ecológico, quase em frente ao que um dia se denominou mirante, existe uma pessoa e uma casinha de madeira sem energia elétrica que aos poucos perecem. A mulher, de pouca saúde e angústia é consumida gradativamente; a casinha, carente de reforma, tomada pelas intempéries e cupins, falta falar e assobiar pelas frestas que denunciam a sombra de alma feminina que ronda constantemente para lá e para cá, de fome, de tristeza, amargura e, sobretudo, esperança.

Da plenitude da visão esquerda só existe lembranças. Boas lembranças. Quando acometida pela pressão arterial, o olho que insiste em ver o mundo enxerga apenas vultos.

Andar no assoalho da casinha requer atenção e cautela. Um sujeito pesado como eu se enfiar os pés numa tábua... já era.

 

"Quando chove e alaga tudo, sobe aquele fedorzão...

“Eu preciso mesmo da ajuda das pessoas, porque nem roupas eu tenho mais para vestir”

Um vaso sanitário dentro de casa, e a tubulação feita de garrafas a permitir que as impurezas escoem para o que também denomina fossa embaixo do pequeno imóvel. Não há energia elétrica, e apenas tenta enxergar a claridade vinda da soberba da luz acesa de casas da vizinhança e de postes, menos da que seu irmão lhe cedeu  por algum tempo. Está assustada temendo o aluguel, porque do programa Bolsa Família não lhe resta um tostão para, na condição de inquilina, conviver em quatro paredes de um quarto mais compactado e impresso que a própria vida. 

Duas da tarde. Um fogareiro sem carvão acomoda apenas cinzas; um monte de panelas areadas sem comida alguma; chama de caldo de feijão uma resina ao fundo da panela, como refeição; um fogão que não sabe o que é gás; uma esperança que insiste em viver condignamente, mas que mente, mas que nada. Mas nesta vida onde a curiosidade e a incredulidade são irmãs siamesas, é necessário se constatar para se acreditar, ver para enxergar, apalpar para saber que existe carne e osso num corpo que só está de pé porque Deus permite.

Dona LP é uma senhora de 54 anos de idade. É provável que a idade e a compleição corporal lhe sejam compatíveis, mas as doenças a consomem diuturnamente (falta de ar, pneumonia, derrame, dentre inúmeras). Não dorme direito, chora constantemente, e foi por uma chamada ao telefone que pude ouvir seus reclamos e pedido de atenção.

Não escreve com regularidade; manda e recebe áudio.

Portanto, com sua permissão, este texto é produzido sem rancor, sem sensacionalismo, sem exageros. Não me presto a escrever sem provas. 

Às vezes me ponho a pensar que existem anjos criados por Deus aqui na terra, e com eles nos deparamos ou confrontamos a todo momento. Mas como alguns anjos não trajam paletós e gravatas, não usam perfume importado e não jogam comida fora, suas asas parecem não equilibrar o corpo num voo que faz da vida a prece de todos nós.

Que o Senhor esteja convosco.

Ela aceita visitas e ajuda.

É só constatar, porque o amor e a solidariedade não fazem mal a ninguém.

Contato: 68 99257-0699

   

 

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