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Cara-crachá dos gêmeos garis: varrendo a discriminação

O preconceito é uma caçamba que leva todo entulho que se mistura com pérolas

12/08/2022 às 11h20 Atualizada em 12/08/2022 às 13h50
Por: Paulo Roberto
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Os gêmeos garis - Foto: Paulo Robero A. Pereira
Os gêmeos garis - Foto: Paulo Robero A. Pereira

A convite, recebi os gêmeos Gilzete Nunes da Silva e Gilzemar Nunes da Silva, no dia 2 de agosto de 2022, numa quarta-feira mais que empoeirada e quente no Ramal Olímpio Alves, próximo à cidade.

Havia uma fração de meses que arquitetava a prosa, objetivando tão-só o peculiar assunto a que compete o ser humano: sua história. Alegria foi contar, sem relutância, com a aceitação de ambos, e já começo a entregá-los: Pipira I e Pipira II, porque pelos prenomes, certamente ninguém saberá de quem se trata.   

Não sei se se combinaram em relação às roupas descontraídas que usavam: camisa-polo de cor azul, para Gilzete, e vinho para Gilzemar, mas decerto é que, a começar pelos trajes, a semelhança é peculiar. Um usava óculos de grau, e no momento trajava bermuda jeans; o outro, calça social, decerto que as sandálias eram o que de comum apresentavam.

Em princípio, não costumo receber visitas neste lugar em que a tranquilidade representa a companhia maior, porque nem todo mundo é bicho do mato, mas essas conversas me fazem falta, porque as amizades estão sempre ocupadas, apressadas com coisas mais interessantes.  

Aqui, todavia, é mais brando o som dos pequenos animais: macacos saltando de galho em galho à procura de ingás que quase torraram com o sol, e o alimento lhes ficou escasso; japiins e periquitos a revoar em busca de descanso numa tagarelice só.

O céu apresentava um tom cinzento, promissor de chuva que só cai na hora que Deus quer, e nós, protegidos pela sombra das mangueiras já tão envelhecidas quanto este ouvidor, ou narrador, não sei ao certo, que ainda se arrisca em colher histórias tão marcantes quanto às do seu Lauro nos finais de tarde lá na fazenda Boa Vista, em Xapuri, onde o rio Acre corria entre rebojos opressores em busca de muito mais água.     

Celular sobre a mesa, sentados a tratar das coisas a partir da vida germinal, umbilical, devidamente processadas... porque pobre quando encasqueta com uma coisa, vai longe.

E esta é uma simples história.

Com a palavra, Gilzete Nunes da Silva.

“Nossos pais, Guilhermino Nunes da Silva Pinheiro e Francisca Lopes da Silva Pinheiro, nasceram em Tarauacá-AC. Conheceram-se no seringal Extrema, de propriedade dos meus avós Felipe Jorge da Silva e Amélia Lopes Galvão.”

O namoro daquele tempo era diferente do que se apresenta atualmente, que de tão sofisticado e rápido abre mão por algum momento da presença física. Hoje tem avatás, tecnologia artificial com carinhas e emojis para todo lado e gosto a expressar sentimentos que não passam das linhas que se cruzam.

- Era praticamente uma encenação, telepatia expositiva do afeto. No princípio, minha avó não aceitava. O valor do nosso pai, desde cedo, estava no caráter e no seu trabalho. Um homem de qualidade naquele cenário, submetido a uma espécie inquisitória da vida pregressa e da responsabilidade. Meu avô chamou a família para conversar, e apresentou mais qualidades que defeitos daquele senhor ensimesmado, a ponto de acertarem e liberarem o noivado.

- Meu pai contava que quando namorou a mãe, atreveu-se a pedir-lhe um beijo, e desse beijo quase terminam, por ser considerado um escândalo, uma afronta à família antes mesmo do casamento, já que os namorados ou noivos não tinham intimidade a tamanha exposição e aproximação, e o respeito era a regra que pairava na contemplação à distância de um casal que se amava, e não precisava de palavras bonitas para dizer, porque a prática era mais interessante.

É como dizer que não era fácil esse comportamento naquele tempo, porque mesmo que os procedimentos fossem comuns, havia os mais apressados. Eles até sabiam que seus corações aprovavam, mas tratavam de aquietar-se diante do poderio do pater famílias (do chefe da família que autorizava, consentia, fazia tudo).

Foi então que terminaram o noivado, sendo necessário a intervenção dos nossos avós na tentativa de que se estabelecesse a harmonia e a discrição desejadas.

O casamento dos nossos pais foi realizado sem a presença deles na cerimônia, contando apenas com o padre, já que nosso genitor estava na cidade, e minha mãe, no seringal, ambos distantes. Só com oito dias é que minha avó entregou nossa mãe a ele.

Veio a gravidez, sedimentada pelo calor do casal que se quis, mas com a incerteza de que o amor se perpetuasse na boa convivência, porque era um período de provação e sofrimento à nossa mãe.

Com as dores do parto e os cuidados de minha avó, como parteira, e com o auxílio do meu tio Onildo Rodrigues, que morava na colocação Cruz, que veio buscá-la, conduzindo-a numa canoa coberta de palha de jarina, bem bonitinha e vedada, em direção aos cuidados médicos específicos, na cidade de Tarauacá.

- Quando ele passou de sua casa, antes de contornar no estirão do rio, diante daquelas terras altas, lá eu nasci num cenário atípico, dentro do pequeno barco sob testemunho daquele rio que silenciosamente seguia devagar, dos familiares, diante da dor da nossa mãe. Aí nossa avó disse: o menino nasceu!

- Na hora que ele chega no porto, e para, verificou que havia outra criança, no caso o Gilzemar. Minha mãe ficou meio ruim, dentro da canoa, a partir do nosso nascimento. Não deu tempo de chegar em Tarauacá. Durava mais de hora, para ser preciso, uma hora e meia de motor, de baixada. Então é certo que aquele dia 26 de janeiro de 1961 me trouxe à luz da vida, às 9h, e a meu irmão, às 9h30min.  

- Meu avô era seringalista, o chamado patrão, senhor de terras, seringais, colocação e vários seringueiros, senhores do corte do leite da seringueira, da feitura da borracha e venda para o patrão mais abastado, Altevir Leal.

Minha avó, como parteira das filhas, tinha experiência, e creio que pouca intervenção médica ocorreu com total assistência naquelas paragens entre as matas e o rio Tarauacá, onde a escassez e a necessidade falam mais alto a contemplar tecidos e mãos humanas para ajudar.   

- Quando a nossa mãe veio para a cidade e fez todo o tratamento, meu padrinho, que era enfermeiro, avisou para ela e nossos avós que ela não podia mais ter filhos, e se ela chegasse a engravidar, que tivesse no hospital, porque se fosse socorrida no seringal, não resistiria.

- Quando ela engravidou novamente, e no mês que daria à luz, meu pai se preparou e se prontificou a levá-la para a cidade, recebeu negativa da esposa. Ela não aceitou. Quando o nosso irmão, que seria o caçula, nasceu, ela teve hemorragia interna, e faleceu, deixando o pequeno que apenas durou sete dias, e faleceu.  

- Quando ela adoeceu a partir do parto dos gêmeos, a alternativa para a nossa criação foi me separar do meu irmão de modo que nossa mãe sobrevivesse sustentando apenas um. Eu passei a morar com os meus avós, enquanto meu irmão Gilzemar permaneceu com os nossos pais.

Enquanto eu era sustentado com leite de gado, o Gilzemar tratava de apreciar o alimento característico daquela rainha sem coroa.

- “Quando a minha mãe melhorou, veio à casa dos meus avós para me buscar. Minha avó já havia se apegado a mim de certa forma que se me tirasse dela naquele momento, as cordas de seu coração se arrebentavam, aí começou aquele chororô. Minha mãe não achou justo me tirar das mãos dos meus avós.”

Gilzemar informa que apesar de não ter sido criado com o irmão, sabia pelo pai que ele estava bem, assim como seus avós, quando de suas visitas a eles, inclusive sobre os demais irmãos.

Eu fiquei na companhia da mãe porque era o mais “mufino” (doentio), e o mais nutrido, Gilzete.

Durante muito tempo foi o mais mufino, e que de um tempo para cá deu uma balanceada.

A criação pelos avós  

“A criação dos avós é engraçada. Tem muitas pessoas que dizem: avô põe os netos a perder. Com a minha avó era diferente. Se eu fizesse alguma coisa errada, era corrigido com peia”, aduz Gilzemar.

“Naquela época eles não escolhiam se o castigo seria com um pedaço de sola, se com uma palheta de torrar café ou palmatória. Tudo isso aí eu experimentei. Ainda diziam assim: ‘isso aí é para quando você crescer, e se você não prestar, vão culpar os avós. É porque foi criado com os avós, não presta por causa disso.”

Na minha criação eu conheci meus primos. Ora ficávamos na cidade, ora no seringal. Chegava a passar 15 dias na cidade, e perdia o ano letivo, e tudo foi indo, foi indo assim. Eu era bom em Matemática. E hoje já me falta a qualificação. Eu perdi de entrar no quartel da PM por ter apenas a 4ª série. Podem perguntar ao Eliecyr, militar de alta patente conhecido em nosso meio.   

- Trabalhávamos na Concept. Estávamos fazendo o segundo pavilhão do 4º BEF, em Rio Branco. Eu e meu irmão nos alistamos, fomos submetidos àquelas inspeções, e verificaram que eu tinha dentes estragados.

A autoridade militar (comandante) me ordenou reparar os dentes que no ano seguinte eu entraria para o exército. No outro ano eu fui de novo, mas não tive como restaurar os meus dentes. Ele disse: rapaz, você não quer nada com a vida não, cara! Olha, não vou querer nem que você venha mais aqui.

- Todos os anos a pessoa tinha que carimbar a carteira de terceira (categoria). O desprivilegio tomava conta do ambiente, e para ser sincero ninguém nasce sabendo, e o sofrimento do homem do campo nunca será requisito ou peso e valor para quase ninguém, mesmo sendo responsável por levar à mesa do brasileiro a alimentação que consome, que o deixa forte para esbravejar e discriminar.

 - Ele carimbou aqueles espaços todos de uma só vez, isso de nós dois (da minha e do meu irmão), porque andávamos juntos. Eu me arrependo até hoje, porque certamente eu já estaria na reserva, e até respeitado, já que para muitas pessoas não é a nobreza que se põe firme ao pedestal, mas o status que cada um ostenta e representa.

- O meu sogro já dizia que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Dou graças a Deus por ter sido aprovado em um concurso para gari promovido pela prefeitura de Plácido de Castro, e meu irmão, também, foi chamado após três meses que eu estava empregado. Felicidade em dobro. Afinal, somos gêmeos.

- Nós somos os caçulas. Por parte de pai e mãe somos seis. Todos vivos, graças a Deus. O mais velho chama-se Gerson Nunes da Silva, e mora aqui em Plácido de Castro mesmo. A segunda é a Gercilda, que mora na estrada que vai para Sena Madureira. A terceira é a Gercílina, que mora em Plácido de Castro, também. Temos o Gilson, que mora em Rio Branco.   

Gilzete, por sua vez, a respeito da criação com o pai:

“Eu só o chamava de pai na hora de pedir a bênção. No mais, era Guilhermino, velhão. E na hora que ele estivesse fazendo alguma coisa e fosse interrompido, já olhava com uma carranca que expressava a tremenda frase de que o bicho ia pegar depois.”

- Eu era jovem quando ainda morava com o meu pai, na colônia, o qual, acometido por diabetes, e com a perna amputada, faleceu após tanto sofrimento.

O relacionamento entre os gêmeos   

Gilzemar e Gilzete

“Nós não sentimos tanta falta um do outro porque trabalhamos juntos. Eu trabalhava na máquina e meu irmão na praça central. Depois de um certo tempo passamos a trabalhar juntos.

- Tem horas que a gente discute, discute. Mas somos tipo o seguinte: muitas vezes, quando meu irmão é questionado por alguém, ou seja, quando há necessidade de uma resposta, eu já estou processando essa resposta e digo para ele, que me responde, é isso mesmo (o que seu irmão iria responder). Eu antecipo a resposta que ele daria.

- Se por acaso eu adoeço, eu digo logo para ele: estou doente disso assim, assim... Ele já fica esperando, e com dois ou três dias ele adoece do mesmo mal.

- Muitas vezes ele vai dizendo uma coisa, e eu apenas complemento o que na verdade ele diria.

- Como exemplo, eu chamo alguém e digo: vem cá, fulano, eu vou fazer uma pergunta ao meu irmão, e perceba que ele vai responder isso e isso. Aí eu, pan! E a pessoa fica admirada.

- Às vezes meu irmão reclama, dizendo: poxa, você vai adoecer, e eu respondo que não tenho culpa. Um sempre fica esperando o que vai acontecer se o outro é acometido de alguma doença.

Um dos irmãos contraiu Covid-19. Passou então a ter mais cuidados com máscara, álcool em gel e tudo, mas não teve jeito: de Covid-19 foi contraído também.

Muitos dizem que os gêmeos podem sentir o outro, assim sabendo quando está mal fisicamente e emocionalmente. Até mesmo alguns afirmam isso, mas não há comprovações científicas para tal.

Entretanto, é verdade que os irmãos gêmeos conseguem se entender muito bem; às vezes até de forma curiosa e misteriosa. O vínculo entre eles pode ser tão forte que chega a impedir que percebam uma individualidade própria - "sentindo" um pelo outro como se fizessem parte do mesmo corpo.

Há características presentes na vida de Gilzemar e Gilzete que os tornam diferentes, ou reconhecíveis. Hoje não são as cores de suas camisas ou a compleição física que é praticamente igual. O mufino, menino desnutrido de antigamente, criado um pouco com a mãe e mais tarde pelos avós, já está balanceado. Gilzemar usa óculos de grau, e, como o pai, luta contra o diabetes.

Gilzemar

Do quadro de parede de Gilzemar Gilzemar 

Informa que no segundo concurso público que fez foi aprovado com o irmão em 2002. Na época tinha experiência e curso de operador de máquinas pesadas.

Aprendeu a operar máquinas com o Pachequinho. Ele é funcionário do Deracre, tem peso e nome por onde passa. É do governo do Estado do Acre.

- Aprendi levando a máquina para a SEMSUR. Na época que houve concurso para operador, eu estava tirando a minha habilitação.

“Lembro que pessoas experientes, como o Waldemir, que já tinha carteira, me perguntou se eu ia fazer o concurso. Eu disse que não, e perguntei o porquê. Ele disse que se eu fosse fazer ela não ia, porque a vaga era minha, atribuindo ao fato de eu ser experiente, um bom operador.”

 - Na época eu já trabalhava com nove caçambas truncadas, enchendo-as.

- Quando o Pachequinho voltou para o Deracre, em Rio Branco, chamado pela administração daquele tempo, do primeiro mandato, perguntaram-lhe quem ele indicava para ser o operador.

- Fui indicado pelo Pachequinho como operador de máquinas, o qual me atribuiu algumas qualificações indispensáveis ao exercício da profissão. Eu não tomo bebida alcoólica e não tenho mau comportamento a comprometer a mente na direção de tamanha responsabilidade.

- Graças a Deus que as coisas fluíram por onde trabalhei. Teve gente de Rio Branco que falou assim: vim ver um gari que trabalha na máquina, e me cumprimentou.

- No concurso para operador de máquina, quem encheu a caçamba mais rápido, gastou cinco minutos. Eu gastava 2 minutos e 40 segundos para colocar sete conchadas sobre ela. 

- Após realizar alguns serviços em vila Campinas, há um bom tempo, no início não sendo bem aceito, porque não me conheciam, e o responsável, que era funcionário do Deracre, relatou que eu era a terceira pessoa que ele presenciava trabalhar tão bem, e olha que no Deracre tem profissionais, feras, lá só trabalha quem é bom.

Eu fiquei lisonjeado e feliz naquele momento, diante dos elogios de um profissional que tinha 26 anos de Deracre, que no início não me tratou com atenção e cortesia, deduzido pelo chamado ``ouvir dizer”, sem se inteirar dos fatos e da minha pessoa. Mas como as dificuldades sempre se apresentam quando nossa fé é maior que elas, segui em frente. 

Eu todo besta quando ele disse que eu era a terceira pessoa (risos) que ele presenciava manejar uma máquina tão bem. Nessa brincadeira eu passei oito meses trabalhando mais ele, o Chumbinho, entre Campinas e Plácido de Castro.

- Lembra daquela descida que era só um caminho que ia para a Bolívia, aqui em Plácido de Castro? Pois é, eu ajudei a fazer aquele trabalho ali.

Varrendo o preconceito    

Amigos do mesmo setor, da esquerda para a direita: Gilzete, Raimundo Boaventura e Gilzemar 

Dizem os irmãos que enfrentam coisas desagradáveis no seu dia a dia.

- Teve vez de nós garis chegarmos a pedir água em determinadas casas, e as pessoas responderem que não tinha. Esse fato aconteceu quando eu, capinando às 10h30min, pedi ao nosso encarregado Sebastião, um copo de água, e ele teve que procurar às pressas porque não tínhamos uma garrafa térmica para evitar aquela cena.

- Tem pessoas que mandavam a gente para aquele canto, simplesmente porque estávamos cumprindo ordens, chegando ao local de coleta do lixo quase embaixo da chuva.

Pipira 1: pai biológico e Pipira 2 (pai socioafetivo)    

Gilzemar

- Meu filho Gildo faleceu num acidente de automóvel quando regressava de Acrelândia para Plácido de Castro, no dia 14 de novembro de 2009. Ele era conhecidíssimo em Plácido de Castro por suas contribuições ao esporte. Ele apitava, bandeirava, fazia um pouco de tudo, mas a morte o levou, deixando um vazio enorme no meu coração. O meu mundo caiu.

GildoDo quadro de parede: a lembrança de Gildo, filho de Gilzemar

- Hoje moram comigo e minha esposa Suely, o D, de 9 anos, filho de outro relacionamento dela. Graças a Deus é o filho que veio acalentar o meu coração depois da perda do Gildo.

- Deus levou o meu filho biológico, e supriu essa lacuna dolorosa, apresentando-me o menor, como sendo um ótimo filho. Tem a menina (R), que mora na cidade, e o outro maior de idade (E), que mora no Mato Grosso do Sul, e todos são para mim ótimos filhos, porque me tratam como pai. Até onde eu posso e a mãe deles permite, tenho exercido o papel de pai para eles. Vou às reuniões escolares com minha esposa, realizo matrículas, tento resolver os pepinos que aparecem, zelo, crio, e educo como posso, com carinho e amor.

Aqui destacamos situação que se amolda à apresentada pelo legislador na codificação regente do Direito de Família. 

Conforme ensinam Carlos Alberto Dabus e Adriana Caldas (Curso de direito de família; 2018, p. 345), o Código Civil de 2002 abriu margem ao debate sobre essas questões e ampliou o poder discricionário do juiz, em face do caso concreto, que apresenta muitas nuanças na vida cotidiana da sociedade atual.

Apresentam o exemplo do marido ou companheiro de uma mulher que não registra como seu o filho dela, mas vive com ela e acompanha a formação e o desenvolvimento da criança, havendo vínculo afetivo entre eles, mesmo porque esse homem, em várias situações, fez as vezes de pai, já que o pai biológico não se mostrava presente na relação com o menor.

O Código Civil de 2002, em seu artigo 1.593, estabelece que “o parentesco é natural ou civil, conforme resultado de consanguinidade ou outra origem”.

Ora, entende-se que a expressão “outra origem” pode amparar diversas situações em que não exista relação biológica ou consanguínea entre as partes, porém, em face do tratamento dado por um homem ou uma mulher a uma criança e da afetividade existente entre eles, dessa forma de relação parental podem defluir direitos e deveres.

Gilzete

“O estudo que não tive não se repetiu na vida das minhas filhas” 

FAMÍLIA

FamíliaFormatura da Francisca Girlândia (Gigi)

A esposa Francisca Maia

- Uma pessoa maravilhosa. Criamos nossos filhos com disciplina.

Geuzileide

A minha filha mais velha necessitava de inscrever-se num curso para técnico em enfermagem, em Acrelândia. Com muita luta a minha esposa a inscreveu. O meu irmão morava lá, na época. Então com ele falei: - Mano, estamos precisando de você. Nossa menina estuda sábado e domingo em Acrelândia, por isso preciso de sua casa para nesses dias ela ficar com vocês.

- Pode mandar, manin. Ela vai ficar aqui, disse Gilzemar.

- Ele sempre tratou muito bem minhas filhas, mas a mulher dele tratava muito mais. Como tudo o que Deus faz é bem-feito, ele trabalhava de vigia aqui na escola Lígia Carvalho, e para Plácido de Castro se dirigia nos dias de seus plantões.

- Quando ele vinha para cá: Minha velha, o almoço e a janta são por nossa conta. Eu ia deixar o almoço dele, e a janta. E lá ele proporciona a acomodação necessária à nossa filha.

- Foi quando nossa filha passou num concurso. Chegou para nós e disse: Mãe, pai, agora eu vou andar com as próprias pernas.

- Minha filha é formada em Educação Física pela Universidade Federal do Acre. Trabalhava no pronto-socorro, e quando veio o concurso ela fez e foi aprovada, passando a trabalhar, também, na UPA, não conseguindo conciliar devido ao cansaço físico e outros fatores. Ela até hoje se arrepende de ter saído de um dos empregos, optando pelo que é concursada.    

- Hoje minha filha retornou para Plácido de Castro e trabalha no hospital Dr. Manoel Marinho Monte.

Gecika

- Minha caçula, Gecika, ganhou uma bolsa e estava fazendo enfermagem. Teve vez de precisar e nós a assistimos. Ela trabalhava e complementava o orçamento.

- Em muitas ocasiões os alunos tinham passeios e atividades na praça central, no momento que nós estávamos limpando a área. Quando de repente uma menina joga lixo no local limpo. Foi quando ela se aproximou de uma outra estudante e disse: Não faça isso não! Você está pensando que ele é lambaio de vocês? Ele é gari, mas não é lambaio de ninguém não!          

- Aí a menina tentou buscar alguns argumentos, e perguntou quem era aquele gari.

- Minha filha Gecika, disse: Esse gari é o meu pai. E não vão sujar mais não! Hoje a minha filha trabalha na escola João Ricardo. É enfermeira formada, educada só no mundo.

Gigi (Francisca Girlândia)

- Esta minha filha se inscreveu para fazer Serviço Social. E assim falou: Pai, preciso de uma ajuda sua.

- Minha querida, a ajuda que eu posso dar para você... Só se for o meu carro. Ela disse que era mesmo o carro. Ela abastecia o carro, íamos com a colega dela para Acrelândia. Eu ficava aguardando elas concluírem a jornada de estudos naquele dia, naqueles meses e anos. Quando terminavam as aulas, retornávamos para casa, cerca de 33 km de distância do polo universitário.

- O tempo dessa jornada foi de três anos. A minha esposa ficava com a nossa neta, Eyshila, enquanto a Gigi estava ausente, estudando distante.

- No dia da formatura da minha filha Gigi, ela fez um jornal assim, de modo que todo mundo que estava lá não contiveram as lágrimas dos olhos. Ela gabando-me, bem como à mãe dela: “O meu pai fez faculdade comigo, só que ele não estava na sala; hoje sou formada, e minha mãe muito me ajudou, ficando com a minha filha, proporcionando-me segurança e alívio.”

- Minhas filhas são dessas pessoas estudiosas e abnegadas, a exemplo de tantos jovens de Plácido de Castro, que praticamente escolhem onde querem trabalhar, tudo a partir de muito estudo e esforço.

- A Gigi hoje trabalha na Secretaria de Educação do Estado do Acre, na escola Franklin Roosevelt. Eu creio que para um pai e um tio que não tiveram a mesma sorte na vida, ostentamos troféus e notas 10 a todo instante com nossas filhas e filhos.

- Os meus filhos são o Francisco Gleyson, que trabalha na Energisa, em Rio Branco, que é do meu primeiro casamento, o mais velho, e o Franklen, encarregado de uma renomada empresa de supermercado na capital acreana.

Formatura da Gecika

Orgulho da profissão

Gilzete

- Num determinado dia os alunos me perguntaram se eu tinha orgulho da minha profissão. Respondi que sim, pois é dali que eu ganho o pão de cada dia. Dou graças a Deus ter sido aprovado neste concurso e faço meu trabalho com prazer. Tudo o que eu faço a respeito das minhas funções, é feito com amor. Não tenho muito, mesmo assim eu contribuí, direta ou indiretamente, na criação e educação dos meus filhos.

- Como gari, tenho orgulho de ter três filhas formadas e um filho se formando. Fiz pouco, em termos de ajuda financeira, mas o meu pouco se reserva à contribuição e conquista deles, porque sou testemunha que filhos já chegaram a pedir auxílio dos pais para conseguir finalizar os estudos, até mesmo ingressar, e se viram sem conquista porque não obtiveram o auxílio tão desejado. 

- Não me senti culpado com nenhuma das minhas filhas.  

Trabalhar não faz cair as mãos e nem a honra de ninguém. Hoje os gêmeos, senhores sexagenários (61) continuam firmes no dia a dia a varrer o chão que pisamos, percebendo salário compatível com suas funções.

Lamentam as oportunidades perdidas, e a ausência de coragem nos embates frustrados pelo que lhes pertenceu desde cedo: o direito e a dignidade, e por não cuidarem dos dentes, um minúsculo exemplo, nas raras oportunidades, deparam-se ao destino que ainda se desponta incerto como para qualquer um.

Mesmo que ainda lhes faltem idade e tempo de contribuição, existe uma esperança maior de descanso tranquilo, como os textos que amo escrever, e, para eles, a merecida aposentadoria, e tudo isso me traz inspiração, como a respiração na hora certa, quando Deus nos protege na inocência dos nossos sonos e sonhos que vagam com o espírito em busca de dias melhores.

Depoimentos dos Filhos

Geuzileide Maia da Silva

Quando falo para as pessoas quem é o meu pai, eles sempre me respondem, " nossa, ele e o irmão dele, são gente bacana, e muito trabalhadores."

Fico muito orgulhosa quando escuto isso." Pois são muitos os que falam, essa frase parece até que ensaiaram, mas isso é o resultado, de quem faz as coisas direito e com muita honestidade. Pois essa é uma das qualidades que eu mais admiro no meu Pai e no meu Tio.

Além disso eles têm um carácter que hoje em dia, vejo como raridade no ser humano, são do tipo que se dão sua palavra eles fazem questão de honrar, e são donos de uma honra que até me emociona só em pensar.  Sempre me inspiro nessas qualidades, para ser uma pessoa melhor, e assim orientar minhas filhas para que sigam esse caminho, pois não há nada melhor do que ter uma consciência tranquila.

Gecika Maia da Silva

 Não há palavras para descrever o amor e a importância do meu pai em minha vida, dos seus ensinamentos e valores. Os estudos sempre foram prioridades pois como ele sempre falava "que não teve estudos, mas que seus filhos iriam estudar" e mesmo assim algumas pessoas não acreditavam que filhos de gari poderiam chegar na graduação. Hoje sou concursada e graduada graças aos meus pais que sempre me incentivaram. Sempre digo que sou filha de gari com muito orgulho e dedico todas as conquistas ao meu pai.

FRANKLEN

PAI QUE ESTE DIA DOS PAIS SEJA UM DIA ESPECIAL, EM QUE O SENHOR SE ALEGRE E SE ORGULHE DOS FRUTOS QUE DEU. PARABÉNS PAI O SENHOR SEMPRE FOI INCRÍVEL E POR ISSO MERECE UMA COMEMORAÇÃO À ALTURA. CONTE COMIGO SEMPRE QUE PRECISAR. TE AMO PAI, UM GRANDE ABRAÇO DE SEU FILHO.   

Francisca Girlândia Maia da Silva (Gigi)

Quando estudava sempre ouvia alguns discursos na sala de aula que se você não estudasse você iria se tornar um gari, era como se a profissão de gari fosse sinônimo de alguém contrário ao estudo.

Ainda escuto esse tipo de discurso algumas vezes, só que posso afirmar que quem mais me incentivou a estudar foi meu pai, um gari. Com toda certeza meu pai cumpre seu papel com excelência, mesmo tendo uma vida difícil com poucas oportunidades, ele conseguiu construir em cada um dos seus filhos o desejo de ir além do que ele foi.  Não estou dizendo que tenho um pai perfeito, pois ele é humano e propenso à falha, estou dizendo que ele se esforça para ser o melhor pai para seus filhos.

O amor de um pai não é demonstrado apenas com palavras bonitas e gestos, mas sim no equilíbrio de saber dizer sim e dizer o não quando necessário. Oro ao Senhor que eu possa viver na prática a palavra de Deus que diz: "Honra teu pai e tua mãe, a fim que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá. (Êxodo 20:12)

AMIGOS

Vanderley Sales

 Vanderley SalesVanderley Sales, gari 

“O Zete e o Pipira são pais responsáveis, bons e trabalhadores. Eles permanecem aqui na praça João Seringueiro até acabar o serviço.

Eu sou pai de quatro filhos, tenho quatro netos, praticamente, porque minha filha está grávida de sete meses. Eu trabalho semanalmente, há praticamente um ano e seis meses, só aqui na praça. 

Eu amo o meu serviço, não tenho vergonha de ser gari.

Meus filhos têm me dado forças e otimismo sempre, porque dizem que sou honesto e trabalhador, e onde estou trabalhando é um lugar de pessoas maravilhosas que varrem o preconceito todos os dias.”

Frutos do trabalho e da organização

Ciclovia - Centro da cidade de Plácido de Castro-AC

Pracinha do João Seringueiro - Conj. Frei Peregrino

Concluímos desejando a todos os pais um feliz Dia, independentemente de sua posição social.

Plácido de Castro é um celeiro de celebridades. Temos mais gêmeos pais e mais amigos de luta, portanto nossa história não termina aqui.

E para quem tem vergonha ou profere a palavra gari como quem não quer ou quis nada na vida ou não aprendeu a lição, e hoje está no que merece, Deus segura numa das mãos um apagador, e na outra um giz a reescrever todas as histórias a todo momento, invertendo os papéis em nossos caminhos, e não se espantem quando, de uma hora para a outra, tudo mudar.

Pai é pai. O resto se contrai numa lição de vida que só contando para acreditar.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Roberto de A. Pereira

Servidor Público, pai, filho de relojoeiro e professora

Estudou e ainda sonha um pouquinho na vida 

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