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Conheça a trajetória de João do Brejo, pioneiro de Plácido de Castro

João do Brejo mora há vários anos na rua Nelson de Souza Nery, próximo a Praça João Seringueiro

01/09/2021 às 16h20 Atualizada em 18/10/2021 às 18h12
Por: Paulo Roberto
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João do Brejo e sua esposa, Neuza. Foto: Paulo Roberto de Araújo
João do Brejo e sua esposa, Neuza. Foto: Paulo Roberto de Araújo

João Alencar de Oliveira, conhecido por João do Brejo, nasceu em São Domingos, no Maranhão, no dia 28 de setembro de 1940, e por longo tempo auxiliou os pais motivado pelo sustento através da agricultura, reunindo forças na colheita, e posteriormente comercializando a produção. Se no início o pai o incentivou e ensinou, com o avançar da idade o patriarca transferiu a João a responsabilidade de conduzir, sozinho, os negócios da família.

A situação de homem do campo era representada pelo trabalho, conforme explana:

O véi chegava a plantar oitenta tarefas de mandioca. Ele pagava peão, informando que no início era apenas o genitor a enfrentar a labuta no plantio, e na proporção que melhorava a economia, contratava de cinco a seis homens para auxiliá-lo no serviço.

Minha mãe cuidava da luta de casa e o véi era na roça. Ele queimava, plantava arroz, milho, feijão, tudo. Vivia direto no roçado.

João de Alencar morou com os pais até completar dezoito anos de idade, e a partir de seu casamento, foi morar com a esposa numa casa próxima. 

Passou a representar os negócios do pai, levando trabalhadores para o roçado, participando da limpeza do mato e do plantio, transportando parte da produção para venda aos mais longínquos lugares. 

De primeiro era tão fácil a vida que tu nem sonha.

O roçado do meu pai era assim: de oitenta, cem tarefas; arroz, milho, feijão, mandioca, farinha. Ele tocava farinha de julho a outubro, direto, dia e noite sem parar. Ele tinha dois fornos e dois homens torravam farinha.

Tinha fartura antigamente. Ele fazia aqueles palhoções de farinha. Ele fazia aquelas esteiras com palhas de babaçu, forrava o piso; forrava de lado, ia botando a farinha, que ia enchendo a ponto de dar uma carrada de caminhão. 

Informa que centro era o nome do povoado que comportava vinte, trinta casas ou mais.

Eu entrava na mata. Naquele tempo era nativo. Eu entrava na mata assim, por exemplo, a partir de um igarapé bom de água, fazia uma derrubada lá, uma casa, vinha um vizinho, um amigo, fazia outra, e assim naquela área as pessoas iam chegando, tirando sua área e trabalhando. Era legal. Aí chamava o centro do João do Brejo, por exemplo, centro do Paulo.

O Paulo é caçador e abriu um centro como daqui ao Quinari, dentro da mata, aí todo mundo dizia: ah, lá no centro do Paulo é bom de caça, reforçando a ideia de que os centros de determinados lugares em sua região eram denominados a partir dos nomes dos moradores do lugar.  

O Juscelino naquele tempo quando abriu a estrada Belém-Brasília, abriu a estrada Pará-Maranhão. Os tratores entraram na mata bruta com desmatamento até o Pará. 

Nós morávamos no centro do Cazuza. Quando saímos de lá, uns cem moradores já estavam fixados. Juntou muita gente. Aqui chamamos de vila.   

Ressalta que o escoamento da produção era dificultoso por conta da distância, das condições climáticas e dos próprios animais. Tudo era transportado em burros e jumentos, porque o caminho era praticamente um varadouro. Do centro da produção até o destino de entrega das mercadorias, ou seja, até o patrão do meu pai, percorria-se uma distância similar à entre Plácido de Castro e Senador Guiomard de enfrentamento das águas e alagamentos do rio Grajaú.

Nós saía quatro horas da manhã. Às vezes até com quinze burros carregados, cada um com dois sacos de cinco latas de arroz.

Nós trabalhávamos para o Januário. Era um senhor de pele escura,  forte, bruto. Foi numa faixa do ano 1953 ou 1954 por aí. A gente saía quatro horas da manhã de dentro do roçado. 

Quando nós chegava lá no destino, era quatro horas da tarde. Quando o rio tava seco, a gente passava por dentro. Dava quatro horas. Quando tinha que descarregar por conta da cheia, nós descarregávamos, passávamos a carga pras canoas juntamente com as cangaias, e os burros nadavam. Isso demorava mais.

João diz que a propriedade rural era uma quinta onde ficavam os animais, e num alojamento os demais trabalhadores. Um barracão, a rancharia do pessoal. 

O meu pai ficava em casa; apenas eu e os comboieiros. Eu levava os meus quatro burros e eles levavam o resto. 

Nós só entregávamos a mercadoria. Tudo era conferido e pesado. A conta era feita, e essa nota ou recibo era mandada para o meu pai. Era muito carimbo. Se a gente perdesse aquela nota, já era.  

Sobre o pagamento, diz que quando o seu pai entregava toda a produção, retirando as despesas, ele ia acertar com o comprador no final do ano.   

Nós voltávamos carregados de tudo o que necessitava numa casa, e assim nós tocava. 

Quando completávamos a derradeira viagem era que meu pai ia. Nós passávamos de dois a três dias lá, esperando o pai acertar as contas com o patrão.  

Os problemas de saúde enfrentados pelos trabalhadores do campo, sobretudo os que residiam distante do centro da cidade ou de pequenos postos instalados na região,  eram inevitáveis. 

O que tinha lá era uma drogariazinha vendendo remédio pra gente. Na vila maiorzinha tinha uma pessoa vendendo remédio. 

Eu fui morar num lugar que fica como daqui de Plácido de Castro ao 14 da AC 475. Coloquei um boteco. Rapaz, deu certo. Eu tinha crédito em três usinas que compravam arroz. Pelavam cem sacos por dia. 

Eu comecei a trabalhar só. Comprei uma chácara de trinta hectares. 

Os negócios deram certo. Ficou conhecido João do Brejo. Comprava diretamente nos armazéns de |Imperatriz . Todo final de semana fazia compras de produtos para revender.

Trabalhei durante sete anos para um gringo. O comércio dele era do tamanho desse prédio do mariri.  A firma foi abrindo a mão pra mim. Fui aumentando o meu negócio com as vendas. 

Eles me estenderam o prazo, disseram para eu comprar mais. 

Arrumei crédito no armazém Paraíba. Também na usina de pelar arroz. Arrumei crédito na fábrica de tirar óleo de babaçu. E aí o homem cresceu. 

Agora me chamavam seu João do Brejo. 

Os pais de João já estavam velhos e cansados. João fez uma casa grande e convidou-os a morar consigo. 

Vocês comem do que quiserem e ficam morando com a gente. Não lhes faltará nada.   

Comecei pagando frete com um caminhão para transportar meu produto. Logo necessitei de outro veículos de maior porte. 

Eu comprava. Por exemplo, eu ia lá na colônia e pegava cem cachos de bananas e colocava pra revender. Eu comprava cinco carradas de arroz e já tinha gente querendo vender mais cinco. Era necessário mais frete. 

Eu passava de oito a quinze dias sem ver minha véia. 

Eu fazia duas carradas de babaçu de oito em oito dias. Em seguida, eu levava para a fábrica ,sempre na mesma sistemática, comprando no interior e revendendo pra usina.  E assim eu ia indo, comprando tudo o que dava. 

O que o pessoal do centro necessitava, eu levava pra eles. 

João relata os fatos que antecederam sua alcunha.

Tá vendo essa menina aí que me ajuda, a Terezinha?

Minha esposa, na época, estava para dar à luz à ela.

Neuza, e agora? Você desse jeito. Tenho que sair amanhã pra ver o negócio do arroz e o pessoal me paga adiantado. Inclusive chegou um rapaz na hora da conversa pra me chamar pra ir pegar um arroz que já estava quase nascendo nos sacos, mesmo sendo coberto com palhas de babaçu.

Seu João, os sacos de arroz estão branco igual barba de véi. 

Neuza, e agora o que eu faço? Voltou-se à esposa após tomar conhecimento da situação.

Não, vai.

Eu só fiz pegar a bicicleta, fui na casa do menino do caminhão orientando-o a ir pela estrada que eu ia de bicicleta por dentro. Que nem assim, vai pelo Rio Branco e aqui por Acrelândia que sai na BR. 

Foram oito dias de chuva. Tinha que pegar mais de trezentos sacos de arroz. Dez carradas destinavam-se àquele negócio. Carregaram o arroz. Sobre atoleiros chegaram ao destino, não sendo bem aceito o negócio com os comerciantes, mas o fato é que o produto foi recebido e aproveitado, descontado o prejuízo por cada saco. 

Não tinha telefone naquele tempo, não. 

A mulher ficou em casa com o buchão. Saí de casa de dia. Ela estava bem, mas quando chegou a noite ela ganhou essa menina e eu não estava lá. A parteira morava como daqui ao Wagner. Foi ela que pegou a menina. E eu pra lá lutando com arroz. Dezoito dias perdurei com o transporte do arroz.

Foi nesse dia de retorno a casa que o tempo estava ruim. Choveu bastante. Os atoleiros eram inevitáveis. Força para empurrar o veículo, mas sem êxito, até que um outro veículo passasse e puxasse. Muito cansaço. 

Lá pelas cercanias do Pulo Quero tem um igarapé mais perto do que esse Rapirrã. Estava cheio de ponta a ponta. O caminhão só ia até ali e voltava. 

Tivemos que fazer um galpão para estocar a mercadoria, para depois transportar de canoa à outra margem. 

O dono do comboio pegava a mercadoria e deixava lá em casa, pra mim.   

Tomaram conhaque e pinga.

O povo até se divertiu, ali no brejo, quando tiveram a presença de mulheres que passaram pelo local, nada a convite deles, porque na verdade estavam cuidando das mercadorias, que de certa forma atraía a presença de algumas pessoas. Foi ali que o Brejo aglutinou-se com João em meio à exaustão e à expectativa de reencontrar a família e sua pequena. 

Foi o único pega que tive com minha véia durante sessenta e quatro anos, foi essa questão de bebedeira lá no brejo, do povo que me apelidou enquanto aguardávamos a conclusão do transporte da mercadoria molhados de chuva, tragando uma pinga. 

A decaída. 

João cansou de colocar muito dinheiro por meio de sacos de estopa que entregava os produtos. Não usava bolsas. Guardava atrás dos bancos dos caminhões. 

Se eu quisesse comprar um caminhão por semana, eu comprava.

Eu tinha um amigo que me encomendava cigarros da cidade, e eu os trazia para ele. 

Por isso que eu digo: Certos amigos é melhor a gente não ter. 

Esse camarada mandou fazer uma macumba pra mim, referindo-se à inveja do sujeito.

A véia falou para um primo meu lá. 

Meus negócios que eu fiz fiado, os caras foram embora e não me pagaram. 

Perdi dezoito carradas de arroz que eu tinha pago adiantado. Meus pais já não estavam vivos.

Perdi as contas que eu tinha. 

Tu acredita que com dois anos eu fui pro cabo da enxada?

Eu nunca joguei baralho, jogo nenhum, e estava naquela situação. 

João pagou as contas que tinha, vendeu a casa, reuniu a família e procurou recursos para uma vida nova, porque, segundo ele, lá em Imperatriz tem gente que sabe das coisas, e ele sabia que o mal de espírito que lhe causaram arruinou sua vida naquele momento, mas com fé em Deus e em sendo devoto de São Francisco, firmava-se na fé e na esperança.  

Com tanto prejuízo, e contando com 30 anos de idade e sete filhos para criar, abandonava o brejão. Pediu de empréstimo um terreno a um amigo, cuja proposta de retorno, era que produzisse três sacos de renda de cada tarefa e entregasse a ele.  

Mas rapaz, eu vou derrubar a mata, plantar, e ainda dar três sacos de arroz batidinho no saco!

É isso mesmo, João, disse o amigo (mas que amigo).

Vou pegar porque eu estou sem nada. 

Quando João estava trabalhando, brocou setenta e oito tarefas de mato na foice e no machado. 

Foi então que o dono, quando viu  serviço, admirou-se:

Vou deixar você me dar só dois sacos. Você me dá só dois sacos de renda. 

Tá bom, informando que plantou todo o roçado. 

O Raimundo do Caminhão, marreteiro forte, comprador de arroz, aproximou-se de mim e disse:

João do Brejo, se tu precisares de dinheiro para plantar, roçar, eu te arrumo. Quando o arroz estiver maduro você me paga. 

O negócio de lá, antigamente era assim. 

Eu aceitei. 

João diz que trancou o roçado, colheu, e quando o arroz estava maduro, meteu a faca pra cima. Cortava quinhentos quilos de arroz num dia, só no cachinho. 

Colhi o arroz, paguei o arroz dele, aí ele me deu mais dinheiro. Colhi dezoito carradas de de cento e vinte sacos de arroz desse roçado. Dava uns quilos. 

Eu plantei um litro e meio de sementes de melancia. Dava uma carreirona cruzada no meio. Esse Raimundo foi um dia lá e viu as melancias. Ele viu melancia de dezoito quilos. 

Rapaz, eu vou levar pra Imperatriz. Você vende?

Vendo.

Como é que você faz?, perguntou a João. 

Ele levou cinco carradas de caminhão. Aquele mundo de melancia de quinze, dezoito quilos. Vendeu tudo. O resto eu chamei o pessoal e dei melancia pra todo mundo da cidade. 

Eu já estava no segundo ano nesse lugar e pensei: - Vou trabalhar agora pra eu ir embora pra outro lugar, para outro estado. Vou pra Rio Brnco de Roraima. 

Plantei cento e dez tarefas de arroz, plantei oitenta tarefas de mandioca, sessenta tarefas de macaxeira paxiúba e vinte tarefas de macaxeira mansa. 

Quando o meu irmão chegou lá, estávamos na colheita de arroz. Colhemos trinta e nove carradas. 

O irmão de João morava em Rio Branco, no Acre.

Irmão, eu só estou terminando de vender as coisas e planejo ir pra Roraima.

Rapaz, tu é doido! Vamos lá pro Acre. Eu tenho terra lá, seringal, eu tenho meus terrenos e casa lá na cidade, em Rio Branco. Te dou quinhentos hectares. É lá no São João do Balanceio, na BR, no Tucandeira. 

Minha caçula veio mamando. 

João acomoda a família num caminhão fretado para transportar a família a Rio Branco. 

Viemos rumo ao rio Jacarecanga, na Transamazônica. Quando chegamos, a ponte havia quebrado. Passamos a bagagem na canoa. Paguei o caminhão e ele voltou.

Quando foi umas quatro e meia chegou um caminhão véi Mercedes Bens, trucado, levando mil quilos de sal pra fazenda do cara. 

Viemos nesse caminhão com destino a Porto Velho. 

Chegamos em Porto Velho às cinco horas da tarde. Os guardas botaram curto. Foi um para pra acertar. 

Moço, nós estamos fazendo mudança, não é outra coisa não. 

Nessa viagem tinham seis famílias maranhenses com destino ao Acre. 

Olha, vocês peguem esses meninos e levem pra junto dos guardas. Façam as crianças chorar, aperrear. 

Os guardas largaram o posto e iam lá pro pé do muro e as mulheres acompanhavam os meninos.   

Quem é o chefe desta mudança, questionaram-nos.

Aqui não tem chefe. Somos seis famílias destinadas a Rio Branco. 

Vamos levar uns quatro deles lá na sede para fazer um documento.

Entrou eu, o Joca, marido da Marinete, entrou mais os outros dois, o pai do Lourenço. Esse Lourenço é filho do vereador Burrinho, de Acrelândia. 

Mas vocês não sabem que lá em Rio Branco tá em Guerra?

Não sei não, mas o certo é que havia conflito fundiário em Xapuri. 

Assinem aqui e vão embora!

As famílias ficaram alojadas na casa do motorista do caminhão. O motorista informou que havia ônibus naquela noite para Rio Branco. 

Olha, daqui a meia-hora tem ônibus para Rio Branco. 

Vocês fiquem todos aqui que eu vou a Rio Branco, disse João aos companheiros. O dinheiro não dá mais pra pagar o ônibus para todos. Era 25 de julho de 1977.

Quando João chegou em Rio Branco, o Raimundo Sampaio olhou para ele e perguntou se era de fora, achando-o parecido com uma pessoa dali, o Silvino. 

Você é irmão do soldado?, que era o Silvino.

Achei a casa do meu irmão. 

Enfrentaram o frio do Acre, as chuvas e os alagamentos. Maranhão agora fica na memória. 

Na boca da noite fomos procurar o Ramon, que era o gato das fazendas. Ele disse para o meu irmão que tinha 53 alqueires de mato para roçar. Uns três caras pegaram o serviço, mas abandonaram. Eu tenho que brocar esse mato.

Eu pego.

Fomos lá na Vaca Branca, olhamos o mato e voltamos.

Meu primeiro negócio. Entrou dinheiro e não foi brincadeira. 

Comprei tudo, reparti o dinheiro para cada um das famílias. 

Brocamos em vinte e oito dias 53 alqueires de mata bruta. 

Fiquei com doze mil cruzeiros de saldo. 

João e os companheiros pegaram, ainda, vinte e cinco alqueires de mata na fazenda Ponteio. 

O Manoel do açougue era o gato nosso lá. 

Nós brocamos em doze dias. Nós éramos afamados. 

Brocamos mais vinte e dois alqueires de mato na fazenda Porta do Céu, tudo arranjado pelo Manoel açougueiro. 

Depois fiquei roçando o quintal ali em Rio Branco. Os outros ficaram trabalhando em colônias para aqui e pra acolá. 

Dirigiram-se ao INCRA e se inscreveram na tentativa de ganhar um pedaço de chão. 

Só o Joca, eu e o Luiz Preto. Colhemos uma carrada de arroz e nada do INCRA dar as colônias. 

Quando foi um dia, deitado, escutei do rádio uma mensagem de que o INCRA já estava liberando as colônias de Plácido de Castro. 

Fulano de tal, beltrano de tal. Chamou o meu nome. 

Olha, amanhã o carro vai levar o pessoal pra entregar as colônias lá em Plácido de Castro.

Eu estava meio doente e pedi ao Joca pra receber pra mim. Onde for eu quero. Eu estava com uma gripe, uma febre doida. 

Eu chorei quando vi a situação. Sentei num pedaço de madeira e não me contive. Era lá dentro do Doze. Tudo era na pernada, salvo alguma passagem de Plácido para o Visionário. 

Pegamos na perna daqui de Plácido, entramos lá, cinco quilômetros lá pra dentro. Só a varedinha da topografia. 

Eu agora morri!

O INCRA deu a colônia, deu o cartão de assentamento, e aí com aquilo ali já liberou um cadastro no banco pra fazer empréstimo, trazer dinheiro pra ir abrindo a colônia. 

Três mil oitocentos e pouco foi o dinheiro que peguei do empréstimo, fora o motosserra e as coisinhas. Cinquenta e dois hectares para assentar a família. 

Recebi a colônia e fiquei sem jeito. Já devia pro banco e a motosserra. O dinheiro já havia sido gasto quase todo. Sem estrada, sem nada, só a varedinha.

Dezessete quilômetros a pé para Plácido de Castro.

Joca, o que eu faço agora? Agora tô morto. 

Não, seu João. O senhor bota um alqueire ou dois aqui na minha e nós trabalha e colhe, aí dá pra saldar a dívida no verão.  

Joca, sabe de uma coisa? Eu vou lá pra dentro. 

Pegamos os dois alqueires dele, derrubamos. Pegamos o rancho, colocamos nas costas, fizemos um barraco lá de lona na beira de uma vertente, e largamos o pau. 

Eu broquei nove hectares de mata bruta. 

Enquanto seca eu vou ganhar umas diárias fora.

Brocou e limpou dez tarefas de mato do colono João Sabino, ali na Mendes Carlos. Ele morreu no ano passado de Covid, ele e a filha. Após, voltamos pra nossa morada e tocamos fogo na mata. Fez um galpão, levou a família pra lá; meteu o motor pra cima, e foram coivarando tudo, aceirando.

Plantamos tudinho e suportamos. Rapaz, eu vou te falar uma coisa. Eu colhi, só nesse roçado primeiro, oito carradas de arroz. Milho eu vendi oito carradas para a usina que tinha no Quinari, e cento e quarenta e oito sacos de feijão eu colhi.

Comprei tudo o que eu precisava, inclusive carro.   

Após a instalação do cansaço no decorrer dos anos e da idade, tal qual os velhos pais, João veio para a zona urbana de Plácido de Castro. Antes de explorar as atividades que simbolizam a sua luta e as veias, presidiu por longo tempo a Associação de Moradores do Bairro Olaria, que leva até hoje o nome de Associação João do Brejo.

Mas são nas atividades que lhe edificaram o nome a partir da opinião do consumidor placidiano, que João do Brejo se diz feliz, que já não precisa tanto lutar, porque alimento é o que lhe multiplica em mesa todos os dias, como a fé que se instala das paredes de sua casa,  

Aos oitenta anos de idade, se aventura estrada afora em seu Fiat Fiorino ano 1993 em busca de produtos para reforçar o cardápio alimentar posto à mesa dos munícipes placidianos. É mais um homem do campo que se retirou do meio vencido não pelos desafios da modernidade, mas por questões de saúde, principalmente da coluna que suportou toneladas de alimentos ao longo de sua trajetória vital.  

O senhor João do Brejo compra e vende de tudo, praticamente, conforme se percebe em sua morada comercial na Rua Nelson Nery, centro da cidade. Casado com dona Neuza há 64 anos, pai de sete filhos, herdou o apelido de homem do brejo de vigor juvenil, e traz nas veias a marca de desbravador maranhense, que radicado no Acre encontra-se realizado e feliz.

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